Conheça as competências e habilidades dos profissionais do futuro

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Até 2020, as empresas vão investir mais de 300 bilhões de reais em transformações digitais e já buscam profissionais qualificados para conduzir essa mudança

Ele é um multiprocessador. Está lendo alguma coisa e processando ao mesmo tempo. Cria um modelo em sua mente e então começa a organizar a informação”; “Ele olha problemas por ângulos atípicos, prospera na complexidade e se destaca quando o jogo está contra ele.”

As declarações sobre Bill Gates, fundador da Microsoft e responsável pela popularização dos PCs, aparecem no trailer de Inside Bill’s Brain, documentário de três episódios que estreou dia 20 de outubro na Netflix, e definem com perfeição o que muitos especialistas de mercado vêm chamando de “destreza digital”.

Numa pesquisa recente com 3 500 pessoas, a consultoria americana Gartner mapeou as cinco competências demonstradas por alguém com esse perfil: adaptabilidade; jogo de cintura nos relacionamentos; gosto pelo trabalho colaborativo; perspicácia nos negócios; e pensamento sistêmico.

Também concluiu que quem as possui é até 3,3 vezes mais eficiente em ambientes disruptivos do que outros colegas.

Pode parecer pouco, mas profissionais que desenvolverem esse conjunto de habilidades terão mais propensão a atuar num mundo em que os empregos se renovarão rapidamente — ou simplesmente desaparecerão.

Um famoso relatório da consultoria McKinsey, por exemplo, prevê que 800 milhões de cidadãos perderão suas ocupações para as máquinas até 2030.

Só no Brasil, de acordo com um estudo recente da Universidade de Brasília, a automação tem potencial para substituir 30 milhões de vagas com carteira assinada nos próximos sete anos.

 

À medida que a digitalização avançar, ninguém estará a salvo e todos correrão o risco de sucumbir à inteligência artificial. E, pior, isso poderá acontecer não uma, mas diversas vezes ao longo de nossa carreira.

Em seu livro mais recente, 21 Lições para o Século 21 (Companhia das Letras, 59,90 reais), o historiador israelense Yuval Noah Harari resume bem a situação: “Um caixa do Walmart de 40 anos de idade que, graças a esforços sobre-humanos, consegue se reinventar como piloto de drone poderá ter de se reinventar novamente dez anos depois se a pilotagem do aparelho for automatizada”.

Autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, com 12 milhões de cópias vendidas, ele sugere que o cenário será tão complexo que prejudicará a organização de sindicatos, dificultará a garantia de direitos trabalhistas e criará equipes híbridas, com humanos e robôs vivendo um cabo de guerra cognitivo.

Enquanto empresas, governos e estudiosos discutem o que fazer no plano macroeconômico — analisando alternativas como a criação de uma renda mínima universal —, cabe aos profissionais se prepararem para esse novo cenário. Isso porque, se por um lado as máquinas arruinarão milhares de ofícios, por outro criarão uma série de oportunidades.

Prova disso é a estimativa do Fórum Econômico Mundial no relatório O Futuro dos Empregos, de 2018. De acordo com a instituição, a nova economia criará 133 milhões de postos de trabalho até 2025. Desses, 54% exigirão habilidades que nem sequer existem.

É aí que as pessoas com destreza digital se destacam, pois aprendem rapidamente, têm disposição para a mudança e uma ambição genuína de inovar.

Repare que nenhuma dessas qualidades passa por vício em tecnologia, nocivo para a saúde e ruim para a produtividade, nem por tecnicidades, como saber desenvolver aplicativos ou programar algoritmos. É uma questão de mentalidade e de atitude.

“Para se tornar um talento digital, o indivíduo não precisa ser desenvolvedor, mas ter um pensamento de simplificar processos. Não precisa ser designer de experiência, mas deve se preocupar com o cliente e pensar como facilitar a vida dele”, diz Carlos Alberto Júlio, presidente da Digital House, que oferece cursos de formação para profissionais digitais.

Agilidade

Com os métodos ágeis espalhando-se rapidamente pelas empresas, estar antenado em relação a essas tendências faz toda a diferença.

Quando são dissolvidas as barreiras entre os departamentos, as funções se interligam, os prazos ficam mais curtos e a dinâmica passa a ser errar e consertar rapidamente, quem não possui a mente aberta fica para trás.

Em ecossistemas voláteis, adianta pouco ser o mestre da codificação se não tem habilidades comportamentais — ainda mais porque o senso de cooperação é algo elementar para as novas formas de trabalho.

“Os squads são ambientes de alta ambiguidade. Só sobrevivem os mais flexíveis e colaborativos”, diz Thiago Nascimento, diretor de experiência digital do cliente da consultoria Capgemini.

Saber coligar é o melhor jeito de estar no centro da transformação. No fundo, os trabalhadores precisam entender que a tecnologia se tornou uma commodity.

Por isso, ela não deve ser o fim, mas o meio para construir histórias inovadoras. Ter consciência disso é um dos aspectos fundamentais para se tornar um talento digital. Outro, tão importante quanto, é a capacidade de aprender de forma contínua e autodidata.

Como as universidades e os livros não abarcam hoje o conteúdo de que precisaremos amanhã, será necessário desaprender e reaprender várias vezes ao longo da jornada profissional.

“Passamos a vida toda estudando e, quando chegamos ao mercado de trabalho, descobrimos que falta conhecimento. Esse é o tipo de desafio que vivemos hoje”, diz Mariana Achutti, fundadora da escola de educação corporativa Sputnik.

O lado bom é que estamos na era da informação. É possível buscar referências e encontrar farto material, inclusive de maneira gratuita, em eventos, aulas online, cursos de curta duração e palestras. Essa busca por conhecimento é essencial para desenvolver a perspicácia nos negócios.

Conhecer as ferramentas disponíveis, o segmento, a concorrência, os clientes e o ecossistema é a chave para se destacar num mercado intrincado como o atual — não sem razão, quem possui inteligência de negócio tem 9,9 vezes mais chance de desenvolver destreza digital (veja quadro na pág. 36).

Talvez por isso, segundo a Gartner, a maior incidência de talentos digitais não esteja entre os millennials (pessoas de 22 a 37 anos), com 9,4%, nem entre a geração X (de 38 a 53 anos), com 8%, e sim entre os baby bommers (de 54 a 65 anos), com 10,7%.

Isso porque funcionários de meia-idade que estão abertos ao novo se sobressaem em relação aos jovens por associar a experiência à criatividade. “O sucesso no ambiente digital não é uma questão de idade, mas de atitude”, diz Marcelo Trevisani, diretor da CI&T, consultoria de inovação, e professor de marketing na Fundação Getulio Vargas (FGV) e na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Carona na revolução

Segundo a consultoria International Data Corporation, as companhias devem investir globalmente 1,7 trilhão de dólares em transformação digital neste ano.

No Brasil, os números são igualmente fortes. Por aqui, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, os aportes deverão chegar a 345,5 bilhões de reais de 2019 a 2022. Desse total, 155,2 bilhões vão para internet das coisas (IoT), 77,8 bilhões irão para nuvem e 61,1 bilhões para big data & analytics.

Apesar das cifras vultosas, a maior parte das organizações ainda patina na hora de colher os resultados desse movimento.

Tanto que um estudo da McKinsey de 2018 constatou que apenas 16% das companhias que se digitalizaram afirmam ter melhorado com êxito o desempenho de seus negócios. Para especialistas, isso acontece porque o triunfo da tecnologia depende dos humanos.

“As empresas procuram pessoas que saibam fazer análise de dados, conheçam os ciclos de gestão de produtos digitais, entendam de aprendizado de máquinas e de inteligência de negócio. Mas não é tão fácil assim encontrá-las”, diz Leandro Herrera, fundador da Tera, escola de competências digitais.

É como se, cada vez que as empresas dessem um passo para a frente, os times dessem outro para trás. É difícil para o trabalhador acompanhar o ritmo das mudanças.

De repente, o gerente do banco percebe que o aplicativo faz seu trabalho, o médico se dá conta de que uma impressora 3D está produzindo o órgão que antes ele operava, e o juiz entende que não precisa mais de auxiliares porque um robô está lendo o processo e o ajudará na sentença.

E essa dificuldade vale, também, para a liderança. A maioria dos executivos quer aplicar metodologias ágeis — e nenhum deles ousaria discordar de que é preciso ter uma cultura digital. Mas poucos líderes são capazes de dizer como conduzir essa transformação.

Por isso, quem desenvolve as habilidades essenciais do talento digital, além de aumentar a empregabilidade, tem mais chance de crescer e assumir posições de chefia.

Perfil híbrido

Das buscas no Google às mensagens enviadas por e-mail. Das músicas ouvidas no Spotify aos filmes vistos na Netflix. Dos posts nas redes sociais aos aplicativos de geo­localização. Tudo gera rastros digitais usados para criar estratégias de marketing, melhorar a experiência do usuário e, claro, vender mais.

“A habilidade de coletar, organizar, analisar e concluir informações estratégicas baseadas em dados é a grande vantagem competitiva das empresas hoje em dia. E os profissionais que se desenvolverem nesse sentido sairão na frente”, diz Luiz Valente, CEO da Talenses.

Ainda que não trabalhe diretamente com big data, computação em nuvem, machine learning, internet das coisas, impressão 3D e blockchain, todo indivíduo terá de entender alguma coisa sobre essas disciplinas.

“Você pode não ter a ambição de se tornar cientista de dados, mas deve saber o que ele faz e qual é sua influência no sistema em que está inserido. Esse raciocínio vale para tudo”, afirma Leandro Herrera, da Tera.

Em sua visão, os indivíduos de maior relevância serão os híbridos, que conseguem mesclar habilidades técnicas com comportamentais e não fazem um julgamento rígido sobre a formação acadêmica e o cargo que se pode ocupar — outra característica do talento digital.

É importante saber que esse perfil já é altamente valorizado pelo mercado. Segundo levantamento feito com 102 empresas pela consultoria de recrutamento Talenses, em parceria com a Digital House, 88% das companhias precisam de pessoas com destreza digital.

Os setores que mais necessitam desses talentos são comércio (92%), indústria (91%) e serviços (87%). “Isso dá uma dimensão do tamanho do gap que o mercado enfrenta”, afirma Luiz Valente.

E também das oportunidades para quem se dispuser a aprender o que vem sendo demandado. Hoje, o cenário é de escalada de salários e de disputa por talentos.

“Companhias tradicionais abordam profissionais de startups que ganham 10 000 reais e oferecem a eles 15 000 mais um extenso pacote de benefícios. Pela primeira vez, os negócios digitais começam a perder gente para a velha economia”, diz Carlos Alberto, da Digital House.

É a prova de que, cada vez mais, a hibridez entre o antigo e o novo será o caminho para a transformação.

Link: https://bit.ly/2OF9kdO

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